Image

O carro custa quanto você paga

01

mar
2019

Quando eu morava no Brasil e cobria a indústria automotiva local diariamente, a cada novo lançamento  – não importando marca, modelo e carroceria – a primeira discussão entre os colegas jornalistas quase sempre era, “Como é possível cobrarem tão caro por esse carro?”

A dúvida era apoiada em constatações básicas: “A plataforma é velha”, “O motor é a mesma tranqueira de sempre mas com outro nome”, “A cabine tem plástico vagabundo”, “O design já chegou ultrapassado”, “Comparado com a versão europeia/americana isso aqui é uma vergonha” etc. etc.

Quando o questionamento era feito diretamente aos executivos das montadoras, em geral nos eventos de apresentação à imprensa (quando temos contato direto com eles, muitas vezes dividindo uma mesa no jantar), a resposta invariavelmente podia ser resumida ao seguinte:

“Nós cobramos o que o consumidor aceita pagar.”

É uma explicação honesta, que deixa de lado a psicologia social presumivelmente envolvida (por exemplo, o porquê de o consumidor compactuar com isso) e atém-se ao que interessa para as montadoras: lucro.

Durante muitos anos pensei que isso era um fenômeno limitado ao Brasil, até porque um de nossos passatempos preferidos era comparar o preço do, digamos, ________ nacional e o do americano/europeu, chegando sempre à inevitável conclusão de que a ______ no Brasil é marota e o comprador local de ______ é um otário.

(Preencha as lacunas acima com quaisquer modelos globais de quaisquer marcas, de Toyota a Volkswagen, de Fiat a GM.)

No entanto, uma recente reportagem do site Carscoops indica que o fenômeno não se restringe ao Brasil: é cada vez mais comum nos Estados Unidos as picapes custarem entre US$ 50 mil e US$ 75 mil, dependendo do tamanho e do pacote de equipamentos.

Enquanto eu escrevo esta coluna, a TV mostra um comercial da Chevrolet Silverado 2019, marquetada como a picape para o americano “real” e não-rico (uma das personagens é uma moça afro-americana chegando ao aeroporto usando a farda do exército). Veja no vídeo abaixo:

Numa rápida consulta ao site da General Motors, descubro que a configuração de entrada da Silverado, com cabine simples, motor 4.3 aspirado e tração traseira, parte de US$ 29,8 mil (sem taxas).

Incrementando a picape por meio da combinação de motores, tração e pacote de acabamento, chega-se ao topo da gama – por nada menos que US$ 60,6 mil (cerca de R$ 225 mil).

Verdade que a Silverado é a picape grande da Chevrolet (a de entrada é a Colorado, equivalente à S10 nacional), mas pelo preço de uma única unidade é possível comprar – para citar apenas SUVs da Chevy – dois Traverse, ou dois Equinox e um Trax, ou três Trax.

Como se chegou a isso?

Segundo a reportagem do Carscoops, usando a mesma lógica dos executivos brasileiros: o preço da oferta segue o quanto a demanda se dispõe a pagar. Não tem a ver com quantidade de compradores, e sim com a qualidade deles.

Mas é claro que, para esse equilíbrio entre o que a montadora cobra e o quanto o consumidor paga seja deslocado para cima, uma estratégia foi posta em prática.

Ao longo de pelo menos uma década, aliás coincidindo com a recuperação econômica capitaneada pelo ex-presidente Barack Obama depois do desastre de 2008/09, as fabricantes americanas foram gradualmente aumentando o preço de suas picapes.

Novos motores, modernização estilística, cabines caprichadas e equipamentos sofisticados e até de luxo foram sendo incorporados às gamas, e os americanos toparam essa (cara) brincadeira. Não dá para saber o que veio antes, ou o que é causa e o que é consequência, mas aos poucos as picapes (e os SUVs) desbancaram os sedãs como opção preferencial de veículo “de luxo” aqui nos EUA.

General Motors (player com duas marcas de picapes, Chevrolet e GMC), Ford e FCA (com a linha Ram) surfam nas margens de lucro maiores oferecidas por esse tipo de veículo. Modelos como os Chevrolet Cruze e Impala, Chrysler 200 e toda a gama de passeio da Ford desapareceram ou vão desaparecer.

Parece um movimento suicida, já que Nissan, Toyota e Honda seguem vendendo basicamente carros de passeio por aqui – mas o fator crucial neste caso é a margem de lucro, vale dizer, o quanto se ganha por unidade vendida.

Em outras palavras, o quanto o consumidor aceita pagar – como no Brasil. Mas pelo menos aqui nos EUA estamos falando de produtos de qualidade.

Claudio de Souza é jornalista desde 1994 e atua no setor automotivo há mais de dez anos. Ex-editor de UOL Carros e Carro Online, ele recebeu o prêmio SAE de jornalismo online em 2011.
Em sua visão, carro tem de ser bom, e não apaixonante. Nesta coluna, discute semanalmente assuntos globais do setor automotivo.
[email protected]