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Mercedes-Benz Classe C é a mais nova vítima da febre por SUVs

14

mai
2019

A Mercedes-Benz pode estar prestes a parar a fabricação nos Estados Unidos de seu sedã mais vendido no país. Se isso realmente acontecer — como previu nesta segunda-feira (13) uma consultoria ouvida pelo Automotive News — será mais um sinal claro de que os carros de passeio tradicionais estão sendo dizimados pelos SUVs e crossovers.

A decisão da Mercedes se deve exatamente às vendas decrescentes do três-volumes (embora ainda seja seu segundo modelo mais emplacado nos EUA) e à ascendente demanda americana por utilitários esportivos e variações — como os crossovers, que misturam características de dois ou mais tipos de carro.

O Classe C é fabricado no estado do Alabama, numa unidade que também produz — no caso, para o mercado global — o SUV GLS e os crossovers GLE e GLE Coupé.

A planta, que gerou protestos dos trabalhadores da Mercedes na Alemanha porque seus empregados não são sindicalizados, algo que europeus não conseguem entender nem admitir, opera atualmente com 93% de sua capacidade, e pode ficar estrangulada caso se confirmem os aumentos de vendas globais de GLS e GLE previstos para os quatro próximos anos: 30% e 28%, respectivamente.

A Mercedes iniciou a fabricação do Classe C no Alabama em 2014; no ano seguinte o sedã vendeu quase 82 mil unidades nos EUA. Em 2019, apenas quatro anos depois, deve vender cerca de 43 mil unidades, segundo projeções. De 31% da produção total da marca nos EUA, o Classe C recuou para 19%.

No site americano da Mercedes, há hoje 19 versões do Classe C, entre sedã, cupê, conversível e esportivo (AMG). A mais barata, C 300, custa US$ 41.400; a mais cara, AMG C 63S Cabriolet (esta feita na Alemanha), sai por US$ 83.800. Já o SUV GLS, talvez o principal algoz do sedã nos EUA, oferece apenas três versões (ou seja, dá menos dor de cabeça para produzir) e parte de US$ 70.150.

ESTRANGEIRO — Segundo analistas, o mais provável é que o Classe C, já em 2020, passe a ser importado para os EUA de uma das outras quatro fábricas em que hoje é produzido — localizadas em Alemanha, Brasil, China e África do Sul (mais provavelmente desta última, que tem 25% de capacidade ociosa.

SUVs e crossovers compuseram em 2018 nada menos que 64% das vendas americanas de veículos no segmento de luxo, um crescimento de 14 pontos percentuais ante 2015 (os dados são do Automotive News). A Mercedes estima que a participação de SUVs e crossovers em suas vendas de 2020 nos EUA será de 60%.

Num degrau abaixo do mercado americano, a tendência também é a predominância de SUVs e crossovers (sem falar das picapes), o que já motivou a Ford a deletar toda sua linha de carros de passeio em favor de produtos como Escape, Explorer e Edge, entre outros.

PERIFÉRICO — A tendência verificada nos EUA também é perceptível no Brasil, e não apenas no crescimento da procura por SUVs — que, aliás, deve intensificar-se ainda mais devido à recém-conquistada credibilidade da Chery e sua renovada linha Tiggo, e também à entrada da Volkswagen na briga com dois ou mais produtos (o T-Cross foi o primeiro).

Jabuticabas como as picapes Renault Oroch e Fiat Toro, versões cross de todo e qualquer modelo (até de minivan com vocação de táxi) e coisas como o Honda WR-V são respostas típicas de mercados periféricos a demandas que custam caro para ser atendidas. Mas o fim das peruas e a debacle dos hatches médios, não por acaso os carros mais próximos dos SUVs no uso urbano (todos são dois-volumes), não deixam dúvida de que não faltará uísque nessa feijoada.

Claudio de Souza é jornalista desde 1994 e atua no setor automotivo há mais de dez anos. Ex-editor de UOL Carros e Carro Online, ele recebeu o prêmio SAE de jornalismo online em 2011.
Em sua visão, carro tem de ser bom, e não apaixonante. Nesta coluna, discute semanalmente assuntos globais do setor automotivo.
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