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Bilhões e bilhões de dólares depois, carro autônomo continua muito distante

21

jul
2019

Cerca de 80% das tecnologias necessárias para fazer do carro autônomo algo rotineiro na vida das grandes cidades já existem, mas os 20% que faltam é que são a parte difícil.

Palavras de Bryan Saleski, fundador e chefe da Argo Artificial Intelligence, a start-up que, há duas semanas, recebeu um aporte bilionário de Volkswagen e Ford para colocar as duas montadoras na rota do carro autônomo. Ao contrário de outros envolvidos nesse tipo de pesquisa, especialmente de pavões como Elon Musk, o chefão da Tesla, Saleski nem mesmo arrisca um prazo para chegar aos 100% de operacionalidade para robocars.

O citado Musk, também na semana passada, anunciou que a Tesla — montadora de carros elétricos que finalmente começou a vender bem — já vai ter carros robotizados circulando em determinadas cidades talvez ainda este ano. Antes, em abril, previra 1 milhão de táxis autônomos até o final de 2020.

Derrapadas da própria Tesla explicam o pessimismo de Saleski e outros. Nada menos que três pessoas já morreram em acidentes envolvendo carros da Tesla que estavam em modo autônomo. Nem o software, nem os motoristas — que, afinal, confiaram que o carro faria tudo certinho — puderam evitar essas tragédias.

Tesla autônomo: muito legal, desde que não mate você

Tesla autônomo: muito legal, desde que não mate você

Mas foi o atropelamento fatal de uma ciclista por um Uber-robô no Arizona, em março do ano passado, que freou consideravelmente o entusiasmo da indústria automotiva pelo carro autônomo. Havia uma motorista ao volante, mas ela estava assistindo à TV em seu smartphone quando o carro atingiu a vítima, que atravessava a rua (fora da faixa e à noite) ao lado de sua bike. O vídeo com reportagem de uma emissora dos Estados Unidos está mais abaixo.

Esse choque de realidade chamou atenção para o fato de que, no trânsito, as interações inesperadas são muito mais diversas do que, digamos, uma pessoa atravessando a rua empurrando sua bike — e que mesmo essa situação, absolutamente corriqueira, pode resultar num acidente fatal porque o carro autônomo talvez seja mais “barbeiro” do que se esperava.

GENTE QUE FAZ — Um aspecto peculiar da corrida ao carro autônomo é o controle da pesquisa em inteligência artificial, vale dizer, quem é que está por trás (e por cima) da tarefa de desenvolver e construir os sistemas que fazem os carros andar sozinhos.

Citado pelo The New York Times, um analista da empresa Navigant Research lembrou que, no começo, as companhias acharam que seria algo simples: “Junte aí uns sensores e inteligência artificial, e vai ser moleza”, disse. “Mas agora todo mundo deu um reset nas expectativas”.

O ponto é, justamente, esse “todo mundo”. A expressão inclui, basicamente, três players: megaempresas de tecnologia; montadoras de automóveis; e pequenas empresas de tecnologia, geralmente start-ups que precisam de investidores-anjo para crescer.

VÍDEO MOSTRA ATROPELAMENTO POR UBER AUTÔNOMO

No primeiro caso, temos principalmente a Alphabet (controladora do Google), que criou sua própria divisão de pesquisa em robocars, a Waymo; e a Amazon, que este ano investiu forte na Aurora (que, um dia, foi uma das start-ups descritas acima).

No segundo temos as montadoras que seguem caminho próprio, como a Tesla e a General Motors, que fundou a empresa Cruise; e as que procuram parceiros, como a Honda (que resolveu investir na própria Cruise) e Ford e Volks, que foram buscar ajuda fora da indústria automotiva — a Argo AI, exemplo perfeito do terceiro caso.

(Correndo numa pista paralela, Uber e Lyft, que podem ser ao menos parcialmente descritas como megaempresas tech, apostam toda sua viabilidade futura em não precisar mais dessa peça incômoda e cara em seus carros — o motorista.)

PRIORIDADES — Essa mistura de expertises e tradições vai, ou pode, dar certo? Será que millenials que cresceram desprezando os carros têm o mesmo entusiasmo dos engenheiros e designers das montadoras? Esse pessoal das start-ups não estaria, em alguns casos ao menos, vendendo terreno na Lua — e embolsando muita grana em IPOs dementes? E qual o poder de fogo das rideshares, que mesmo abrindo o controle em Wall Street continuam perdendo milhões diariamente?

E você, caro leitor, que certamente jamais embarcaria num avião sem tripulação: está em sua lista de prioridades passear num carro-robô? Já pensou que tudo isso pode não passar de vaidade e megalomania de uma meia-dúzia de irresponsáveis (exemplo máximo: Elon Musk)?

Carro elétrico, ou movido a qualquer coisa que não seja fóssil, é prioridade. Carro autônomo, não. Parece que essa ficha está caindo.

Imagens: divulgação

Claudio de Souza é jornalista desde 1994 e atua no setor automotivo desde 2007. Ex-editor de UOL Carros e Carro Online, ele recebeu o prêmio SAE de jornalismo online em 2011. Em sua visão, carro tem de ser bom, e não apaixonante. Baseado nos Estados Unidos, discute nesta coluna os assuntos globais da indústria e do mercado.
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